domingo, 3 de junho de 2012

Um só tempo

O desejo de outro que está para lá de nós, mas ao mesmo tempo, é como se fosse parte constituinte do nosso corpo. Como se fosse um braço ou uma perna, sem os quais não imaginamos ser possível viver. É isso o amor, para mim. É um desenho feito com duas almas, com dois corpos, mas a um só tempo.

TR

domingo, 22 de abril de 2012

Vírgulas e pontos finais

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É nessa sede de querer sempre mais que eu me reconheço, nesse teu traço firme quando a caneta desliza pelo papel. Como se entre as palavras não houvesse espaços, como se entre nós não estivesse um abismo criado desde o início. E é sempre nas palavras que não escreves que eu me reconheço, na tinta preta de caracteres que não estão lá. Que ficaram por dizer e que por isso, dizem tanto. Nunca podemos dizer tudo. É uma característica da linguagem, ela tem falhas como todos nós. Nunca nos deixa dizer tudo. Nunca há palavras suficientes, e é para isso que existem as entrelinhas. Os espaços em branco. Os silêncios. São tudo intervalos necessários em qualquer língua, em qualquer papel. Entre tu e eu, entre eu e o mundo, as palavras perdem-se no abismo e fica o silêncio para lembra-las e soletra-las, como se tivesses escondido um segredo em cada letra e cada frase se desmoronasse na ponta da tua língua. Porque são tudo palavras, o que trocamos, entre eu e tu. Não passamos de vírgulas e pontos finais. Somos só as ideias entre eles. O mesmo fôlego, em maiúsculas ou minúsculas, tanto faz. 

TR

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O umbigo tomou o lugar do cérebro

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Como viver numa realidade onde tudo se descredibilizou e onde o mundo se transfigurou em mundinhos que se fizeram nichos, onde pessoas se comem umas às outras como refeições diárias de auto-estima pervertida; É estranho como os conceitos estão vazios, as interpretações adulteradas, os sentimentos fora do prazo e, no entanto, o mundo continua a acontecer, diariamente. Todos os dias como se nada fosse. Como se viver fosse isto. Criam-se relações em segundos, que são destruídas ainda mais rápido. Nada do que vale hoje tem significado amanhã. O ontem apaga-se com uma borracha, ou com a tecla delete. As palavras deixaram de ter valor, deixaram de se escrever a tentar construir o que quer que fosse, hoje são simples ‘máximas’ que se aplicam a tudo, desde que tenham menos que trinta palavras. A verdade caiu em descrédito e a mentira tornou-se necessária. Já ninguém se aguenta sem mentir a si próprio. Precisamos de mentir a nós mesmos para aguentar o mundo. E precisamos de acreditar nessas mentiras para conseguir viver. O caos instalou-se mas ninguém parece reparar. Chego a achar que as pessoas deixaram de pensar, mas , pelo contrário, cada vez se ouvem mais pensamentos saídos das mais variadas vozes. Toda a gente tem razão num mundo que perdeu a razão. É mais uma reviravolta copernicana na história do mundo. A razão esvaziou-se de verdade. Só serve para cultivar interesses individuais, de contexto e programáveis. A autenticidade perdeu-se a imitar-se a si própria. O pensamento morreu quando deixou de pensar para passar a imitar. E será que ninguém repara? Será que é assim tão complicado olhar em volta de vez em quando e ver para além do próprio reflexo? Há todo um mundo atrás de um nome, toda uma realidade individual que nos cerca. Mas, para além do eu, há um universo cheio de nomes, de identidades, de corpos, que pensam, que têm a própria objectiva e que tiram tantas fotografias como nós. Fotografias centradas em si. Onde as outras perspectivas são meras decorações de outras vidas que não têm interesse. Já nada prevalece. Apenas o eu ganha cada vez mais tamanho, cada vez mais espaço, cada vez mais tempo. Até que chega a hora do sufoco. Momentos, não passam de momentos. Onde o mundo desaba e ninguém sabe o que fazer consigo próprio, para onde ir. Qual é o caminho? Não há caminho. Só resta continuar em frente, erguer a cabeça e voltar a recolher auto-estima no eu que fotografa e se sente fotografado. Achar que é normal. Negligenciar a evidência de que algo está mal. E o problema é que pode não ser o mundo a dar a resposta. Pode não chegar por email. Talvez só se se começar a pensar e se sair da própria perspectiva. Perceber que o mundo já tem um sol, que brilha para todos. E que os holofotes são falsos. Talvez não passe tudo de um sonho e afinal nem existimos. Talvez isto seja só um parque de diversões, onde já não há que pensar, apenas experienciar cada vez mais, cada vez mais alto, cada vez mais forte. Recordar cada vez menos. Reflectir nunca. A necessidade de pensar perdeu-se quando o umbigo tomou o lugar do cérebro.

TR

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Um mundo no outro

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'Amo-te tanto.' - disse ela.
Palavras. Conjugadas. Quantas vezes numa vida se escrevem estas palavras? Quantas vezes, numa vida, se sente verdadeiramente vontade de juntar estas palavras ou de as escrever, uma a seguir à outra. Sempre achei que eram como um imperativo, um peso muito acima do suportável, um palco onde eu não imaginava querer estar. Eram palavras supérfulas num dicionário atolado de coisas importantes. Palavras, simples palavras incojugáveis por pertencerem ao núcleo das palavras-medo, das palavras-não-pensadas-fora-do-cinema. Como eu estava enganada do alto do meu crepúsculo de saberes indizíveis. Afinal elas dizem-se. Algumas vezes numa vida. Eles pronunciam-se por bocas, muitas bocas. Eles ganham vida e são escritas em papéis. Também são escritas em ecrãs. São lidas. Caracteres. Interpretados e reinterpretados. Olhados, revisitados. Ouvidos por mil vozes, em mil línguas. Destorcidos e claros como letras desenhadas num papel. São pronunciadas por vozes que pertencem a corpos. Somos corpos que vibram numa junção de caracteres. Sentidos. Há palavras e palavras, e há as palavras-medo assim como as palavras-sentidos. Palavras escondidas por baixo das palavras banais, escondidas da luz do dia, dos olhares do mundo. Palavras-silêncio, escondidas do barulho ensurdecedor da vida. Palavras símbolo, descodificadas. Palavras-vida que fazem arriscar tudo. Universos entrelaçados por vogais. Mundos edificados em caracteres. Não passam de palavras, mas são palavras-tudo. Palavras, uma a seguir à outra. Um mundo no outro.


TR

sexta-feira, 9 de março de 2012

Cordão Umbilical

Deita-te comigo e faz-me esquecer.
Faz-me esquecer que vais desaparecer e que eu vou ficar sem ti. Irremediavelmente.
Deita-te ao meu lado e abraça-me, enquanto o teu corpo é quente e sente o meu.
Preciso de esquecer o mundo inteiro, mais do que precisar, eu quero.
Porque isto tudo sem ti vai deixar de fazer sentido, como se os dicionários perdessem a validade.
Nada mais vai saber ao mesmo, o gosto vai estragar-se e a vontade de saborear também.
Será que não percebes? Eu nasci de ti e exactamente por isso preciso da tua sombra.
Como se voltasse a estar na tua barriga e tu fosses o meu ar.
A minha protecção, a minha muralha, o meu castelo encantado onde as fadas ainda vivem.
Abraça-te a mim e deixa-me adormecer aqui, ao pé de ti, onde todos os fantasmas vão embora.
O único sítio onde o mundo é suportável. Deixa-me ficar, deixa-me despedir-me.
Deixa-me usar-te como último refúgio, em breve o mundo vai parecer um sítio onde eu não quero estar.
Porque sem ti nada mais será como antes, nada mais será repleto, inteiro.
É como se, contigo, levasses uma parte de mim.
Como se nunca mais eu fosse conseguir ser perfeita. Porque faltas tu.
A única pessoa no mundo inteiro que me vê sem me julgar.
O único colo que me sossegava os pesadelos.
A única arma que eu tinha contra o mundo, o teu aconchego.
Por favor fica mais um bocadinho comigo.
Não consigo deixar-te ir. Seria como deixar afundar-me sem fazer qualquer esforço por recuperar o ar.
Agarra na minha mão e diz-me que ainda estás comigo, é tudo o que eu preciso para ser feliz.
Porque agora sim, percebo, agora faz sentido.
Tudo aquilo que disseram sobre as insignificâncias que se tornam maiores que nós.
É isto que sinto agora. Só preciso do calor da tua pele debaixo do edredon para saber que ainda posso ser feliz.
Porque tu ainda estás aqui. Tu ainda és minha e eu ainda te tenho, mesmo que ameaçada, eu ainda te tenho.
Será que sabes que eu não sei o que vou fazer de mim sem ti?
Será que sabes que os relógios vão parar e a minha vida vai perder o brilho?
Sim, eu sei que sabes, mesmo que faças tudo para não me dizer.
É mais forte do que nós, estamos ligadas por fios invisíveis que transportam energia vital.
Como se a pessoa que nos cortou o cordão umbilical nunca tivesse existido.
É exactamente isso que eu sinto, que me levas contigo e que ninguém nos avisou.
Ninguém nos avisou que estávamos prestes a partir para realidades diferentes,
que fizemos malas contrárias e que inevitavelmente me vais deixar aqui.
Mesmo eu tendo as malas prontas para ir contigo. Mesmo eu querendo ir.
Obrigas-me a ficar porque, como sempre, me dizes para fazer o que está  certo.
Independentemente do quanto custar, do quanto doer, arder e fazer uma ferida que nunca vou curar.
Fica comigo, por mais uma noite, uma só, um abraço de madrugada.
Mesmo que desfeita, mesmo que o dia chegue antes do tempo e a luz nos incandeie.
Estou preparada. A luz vai chegar, eu sei, embora não queira.
A pior luz do mundo.
A que ilumina tudo o que não queremos ver.
Tu a partires e eu a ficar.
Tu vais e eu vou deixar de saber quem sou.
Tu vais e eu vou ficar. A sonhar contigo. Todos os dias. Todas as noites.
Mas eu vou voltar a ver-te e vou cair nos teus braços, vou atirar-me de cabeça.
Quando eu puder ir ter contigo, tu vais ser o colo onde eu vou adormecer, outra vez.
Demore o tempo que demorar, doa mais do que o que já dói,
Vai chegar o dia em que a felicidade de eu deixar este mundo és tu.
Porque vou voltar a nós, ao que deixaste aqui, comigo,
Ao que eu vou guardar, embrulhar e esconder, porque só contigo faria sentido
Até esse dia, vives em mim. Sempre. Mesmo nos poucos minutos em que eu me distraio,
A falta que me fazes é maior que eu, é mais forte que a vida e está em todo o lado,
mesmo todo, como se tivesse encontrado o Deus de que todos falam em ti,
e pela primeira vez acreditasse que há realmente alguém que vai olhar por mim. 

TR

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Instantes sentidos

Perdi a vontade toda de tudo. Ou melhor, de tudo o que até aqui eu achava ser o meu caminho. E ao contrário do que seria de esperar, não me sinto mal. É como se finalmente me conseguisse perder. Como se tivesse tentado muitas vezes e só agora estivesse a acontecer. Puro cliché, ou talvez não. Afinal, eu limitei-me a esperar. Eu soube esperar. Eu sabia que mais tarde ou mais cedo ia acontecer, só não sabia como nem onde nem porquê. No fundo, só sabia que acabaria por chegar aqui. Algum dia teria que parar para pensar e decidir. O problema é que eu já pensei tudo mais que muitas vezes e já decidi há muito tempo uma coisa que só está a acontecer agora. Eu quero ir. Eu quero ir contigo. Tu apareceste na minha vida para me levares. Para nos tirares daqui. Foi por isso que esperaste até agora, porque chegou o momento ideal. É onde eu não tenho princípio nem fim que não seja marcado por ti. Como se eu te tivesse chamado sem saber o que estava a fazer. Em silêncio. Nas mil hipóteses que poria tu serias definitivamente a excepção. Eu não faria isto em qualquer outra circunstância. Nunca perderia o sentido da moralidade universal se não soubesse à partida que não era uma questão de moral. Não passava de sentidos aguçados , de arrepios à flor da pele, como gritos contidos, silenciados, inegáveis e, no entanto, mais verdadeiros do que qualquer frase que eu dissesse a quem quer que fosse. Obrigaste-me a mentir ao mundo inteiro para negar o que sinto por ti. E é aqui que se torna verdadeiro, sincero, sem qualquer jogada ou artimanha, tão irrefletido como um instante onde não há tempo. Os intantes onde nos limitamos a sentir. Seguimos em frente ou paramos? E, de repente, toda a nossa vida nos passa a frente dos olhos, as polaroids sucedem-se e percebemos que parar seria o maior erro que poderíamos cometer. Parar a vida? Parar de sentir o que já tínhamos desistido de sonhar? Que consenso poderia vir daí, nenhum para além de mais uma desistência. E é exactamente isso que eu não quero vir a ser. Uma desistência como a maior parte das que me rodeiam. Todas em algum momento desistiram das suas decisões finais. Ou anteciparam-nas e depois não as souberam remediar. Hoje não passam de desistências, o protótipo do que eu não quero ser.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Interpretações condenadas

Não há explicação para a forma como vieste. Eu também não quis explicações, chegou-me o facto de teres vindo. Assaltaste o meu mundo na tua forma superior que me destronou as defesas e que me seduziu, como só algo de superior tem capacidade para fazer. Não questionei essa tua força nem esse teu mundo, já estava a contar com uma instituição construída sobre bases muito fortes, onde não haveria espaço para qualquer argumentação estética de um mundo desequilibrado como o meu. Mas como sempre, a sedução passou e agora está frio e o mundo voltou à sua forma vazia de inspiração. Afinal, nem tiveste tempo para me conhecer, talvez se me quisesses mais um bocadinho eu me tivesse despido, mas como não és bom a seduzir obrigaste-me a vestir o casaco antes de pensar em despi-lo. Não te considero uma desilusão, não és bem isso, és um misto de incompreensão e de desencanto. Podias ser tudo. És daquele tipo humano que não se sabe aproveitar, não sabe destingir o que de melhor tem e não usa esse melhor. Ou talvez a minha imaginação, como sempre, tenha criado um outro tu onde serias totalmente diferente, onde as nossas cabeças preencheriam a mesma almofada e onde os sonhos se partilhassem enquanto dormimos. Mas isto existe? O problema é esse, existe, e eu sei que existe. Foi por isso que o imaginei contigo, porque tinhas tudo para eu te querer ceder a metade da minha almofada e no entanto, agora, sei que a minha almofada é demasiado curta para nós os dois e teu sono é demasiado leve para partilhar sonhos. Comigo. É sempre esse o meu problema, sonhar compulsivamente acordada com factores que serão sempre capazes de me desiludir e de me magoar, és mais um caso de desencanto provocado pela minha imaginação que te projectou sem tu saberes e que te atribuiu um papel para o qual não te preparaste. Não te culpo por isso, eu não te avisei nem te dei o guião, tu não me conhecias e no entanto eu desenhei-te no meu mundo sem a tua permissão. E eu sei que isto não se faz mas eu vou sempre fazê-lo! Porque é algo de incontrolável em mim, eu vou sempre fazer desenhos em papel de imaginação de todas as pessoas que por algum momento me chamem a atenção. Tu sabes que chamaste. Esse foi o teu erro. Não me devias ter chamado. Porque não basta chamar, é preciso todo um processo posterior que exige muito esforço e que tu à partida sabias que não o ias concluir! Então para quê tirares-me do meu mundo e apresentares-me o teu dessa forma tão chamativa, quando depois não ias continuar a chamar-me nesse mesmo tom de voz que me deliciou nos instantes iniciais? Ou talvez tu tenhas tentado e eu não tenha percebido, o eterno problema das interpretações mais uma vez pode ocupar o protagonismo desta relação à partida condenada. Porque agora, só me resta dizer-te que não me conheces e que o que achas que conheces é só uma ínfima parte do todo, e esse todo eu acho que nunca o dei a ninguém, não sei porque é que pensei em dar-to a ti.

TR

Memórias de uma alma

Hoje vi-te. Não fui só eu que te vi, foi um auditório inteiro. Mas eu vi-te de outra maneira, eu vi-te com os olhos da alma, vi-te com a roupa interior que não é aquela apelidada de soutiens ou cuecas, não, não é essa, é aquela outra, aquela roupa que as almas vestem e que as destingue umas das outras. Muita gente não sabe da existência desse tipo de roupa mas ela existe, e existe em toda a gente. É exactamente essa roupa invisível que eu adoro em ti. É essa vestimenta de uma alma que me atrai como um íman, que me puxa, me assalta, me empurra para ti. E não há como fugir, não há como ignorar, não há como não perceber ou como esconder. É algo do conhecimento sensível e que só assim se torna inteligível. E no entanto, não quero nada de ti. Não quero a tua vida na minha, não quero partilhar a minha contigo, não te quero. Mas gosto de olhar para ti porque é como se fosses um país dos sonhos inventado pela minha imaginação onde a tua personagem é a personificação de tudo o que eu gosto num homem. Mas tu não és esse homem, eu sei disso. É a tua alma que é esse homem, é essa corrente de informação que passa de pele para pele, que passa pelos corpos que não se tocam mas que se reconhecem. Não preciso de saber de ti, não quero saber de ti, mas tu acabas sempre por me falar, e quase sempre sem palavras. És talvez o paradoxo da minha vida, aquele que desde que começou não acaba mais, e faz todo o sentido que assim seja porque há poucos paradoxos destes numa vida e é bom que os poucos que se encontrem não acabem. Não é uma questão egoísta, muito pelo contrário, é uma questão de alteridade, impalpável e no entanto tão arrebatadora que me faz sempre pensar se não existe um mundo onde as almas se encontram todas em grandes conferências de patafísica e festas onde se dança música clássica e onde as conversas são silenciosas e não precisam de palavras. Onde nos reconhecemos como fazendo parte do mesmo clã face ao mundo. Sim, esse sítio tem que existir porque é de lá que eu te reconheço, é lá que tu fazes sentido e foi lá que eu descobri essa roupagem por baixo desse corpo que toda a gente conhece. No entanto, na realidade,  tu não existes, és como fumo por entre os dedos numa manhã de inverno e é isso que me deleita, foi a minha imaginação que te criou quando a minha alma precisou de um cobertor. Hoje vi-te e mais uma vez aqueceste-me num silêncio perfeito.

TR

sexta-feira, 11 de março de 2011

A arte da fuga

Há um cheiro a mudança, um perfume desconhecido, paisagens desfocadas que passeiam numa mente desarrumada. 
O cheiro é cada vez mais intenso, a vontade desse cheiro! 
Vou fazer as malas e partir, vou embora. 
Vou deixar de lutar contra a asfixia! 
Que vontade de correr, que vontade de me perder, ruas onde os meus pés nunca andaram esperam por mim, esquinas nunca dobradas, passeios nunca passeados, oh doce loucura da fuga. 
Doce perfume do desconhecido. 
Que vontade que eu tenho de te agarrar. 
Sozinha. 
Não faz sentido fugir acompanhada, não se foge com companhia, quando se foge, fugimos sozinhos, só nos levamos a nós. 
Não podemos precisar de mais do que nós, é connosco que vamos até ao fim, e é no fim que percebemos que somos singulares, tão singulares que não podemos fugir de mãos dadas.


TR

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Quartos de papel

Eles não se conheciam fora daqueles quartos. Tudo para além daquelas quatro paredes onde eles habitavam juntos, era um conhecimento que os ultrapassava. Eles só conheciam os corpos um do outro. Só conheciam a familiaridade das peles quando se tocavam.
Ela não sabia mais nada dele e ele desconhecia todo o resto dela.
E talvez fosse isso que os juntava numa conexão de corpos que excedia todas as experiências anteriores. Eles não precisavam de mais nada um do outro, para além das bocas que se calavam em beijos que se mordiam.
Naquelas horas, o mundo todo era aquele instante, resumia-se ali.
O pensamento passava a morar na ponta dos dedos.
Ela adorava aquelas horas em que a mente adormecia na cama dos sentidos.
Achava até que era quando melhor descansava, mesmo que a manhã chegasse e o seu corpo não aguentasse o próprio peso.
Talvez fosse uma meditação que só ela experimentava, conseguia sair de si como em nenhuma outra altura, e achava que isso se devia ao facto de não saber nada dele para além de saber de cor o seu corpo.
Ele via nela uma mulher diferente de todas as outras. Ele partilhava com ela momentos que não conseguia descrever se lho pedissem, e adorava saber que ninguém lho ia pedir. Ela era só dele porque ninguém sabia que eles não eram desconhecidos. Ninguém sabia da existencia dela na sua vida. E embora quase nada soubesse dela conhecia-lhe os segredos do corpo e por vezes achava que lhe via a alma naquela nudez deles. Mas ela escondia-a logo a seguir. Esse era o medo dele. Que um dia confessasse sem querer a meio de um prazer insuportável, que não conseguia suportar a vida sem ela. Mesmo que quase sem palavras, ela era o seu melhor e único retiro. Ela pintava arco-íris no céu do quarto que ele gravava na memória com todo o cuidado. Sem dúvida, os seus corpos eram a metáfora perfeita do amor. Nenhum deles acreditava nisso mas nenhum deles negava aquele refúgio. Como se a alma tivesse sede de amor sem palavras e os corpos juntos fossem um poema que não sabiam escrever.


TR